quinta-feira, 25 de junho de 2009

Desculpas esfarrapadas

Há algumas palavras no dicionário que, de tão banalizadas ou subutilizadas, acabam virando abstração. Então paro para refletir até que ponto solidariedade é uma delas. Segundo o dicionário, a palavra significa um laço ou um vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes, ou apoio à causa, princípio do outro. Também pode ser entendida como sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses de um grupo social, de uma nação ou de uma humanidade.

Percebo, então, que para muitos ainda falta tirar a palavra do papel e colocá-la em prática, fazer dessa definição no dicionário exemplos a serem seguidos. Para isso não é preciso fazer malabarismos, pensar em ações grandiosas, tampouco gastar rios de dinheiro. A grandiosidade se encontra justamente nas pequenas ações de doação: de vida, tempo, atenção.

E atenção com o outro é o que menos tem sido visto atualmente. Pare para pensar quantas vezes já viu alguém na rua em uma situação difícil, passando mal, ferida, ou precisando de ajuda, e nada foi feito. Nas situações em que uma pessoa idosa virou motivo de reclamações nas calçadas por não andar no ritmo dos apressadinhos atuais. Ou mesmo nas vezes em que um indivíduo é assaltado ou ferido e ninguém ao lado faz nada para ajudar, por medo. Mas que medo é esse capaz de tirar o mínimo de sentimento de humanidade que se pode ter? De imobilizar frente a uma situação que nós mesmos poderíamos estar vivendo?


Na verdade, o medo é apenas uma justificativa, assim como a falta de tempo, dinheiro, paciência ou o excesso de preocupação que já se tem e impede que as pessoas voltem sua atenção para qualquer um que não sejam elas mesmas. A questão é que a maioria se encontra de olhos vendados para a realidade que a cerca e voltada apenas para a sua, pois seus problemas são sempre maiores e mais urgentes.


É importante, então, perceber a solidariedade como uma estrada de mão dupla, capaz de mudar quem faz e quem recebe a ação, mas cujo tráfego está sempre pouco movimentado. Afinal, o que não vão faltar são desculpas para justificar nosso individualismo, uma válvula de escape para fugir da culpa provocada por essa selva da modernidade, em que prevalece a lei do cada um por si.


(Texto escrito no início de 2008 para a revista "Em Pauta: Solidariedade", produzida para as disciplinas Processo da Informação III e Planejamento Visual, mas acredito que ainda faça sentido)

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