domingo, 13 de fevereiro de 2011

O BBB e a pós-modernidade - Parte 3: A Relativização de Valores

Alemão ficou com Fani e se envolveu com Iris,
mesmo assim levou o prêmio

Nós vivemos em um mundo onde não há nada que se faça que possa ser considerado absolutamente certo ou errado. Esse relativismo é uma das características do pensamento pós-moderno. Segundo Nietzsche, valores como o bem e a verdade não são absolutos, eternos, universais ou imutáveis; ao contrário, são socialmente e historicamente construídos e, portanto, tão contingentes quanto a vida humana.

A relativização de valores não esteve presente no Big Brother Brasil desde o início. Nas primeiras edições, era visível o paradoxo bem x mal. Logo nas primeiras semanas o perfil dos participantes era delineado e dificilmente passava por mudanças ao longo do jogo (até porque havia a ajuda da edição tendenciosa do programa): mocinhos continuavam mocinhos e os “malfeitores” eram eliminados com altos índices de rejeição. Uma das edições em que esse dualismo se apresentou de forma mais forte foi o BBB 5, de um lado a turma do homossexual que afirmava sofrer preconceito e do outro a turma do médico Rogério, eliminado com 92% dos votos.


Na quinta edição do BBB, parece que se atingiu uma fórmula de controle de identidades ideais, selecionando-se dois subgrupos de personalidades, os denominados pelos espectadores e crítica televisiva de ‘turma do Bem’, que são os representantes ‘socialmente marginalizados’, alvo da política de inclusão social da Rede Globo. E os da ‘turma do Mal’ que normalmente possuem corpos esculturais, certo grau de arrogância ou isolamento, e especialmente expressam níveis de desprezo pelos representantes da ‘marginalização brasileira’ (LIMA FILHO, 2005)

Mas nas edições seguintes esse dualismo foi perdendo força, dando espaço para um relativismo entre o bem e o mal. Ninguém dentro da casa é totalmente mocinho ou totalmente vilão, todos são jogadores que podem mudar de estratégia durante o jogo para alcançarem o prêmio. Esse relativismo pode ser percebido, inclusive, nos discursos de eliminação do apresentador Pedro Bial, como o de uma das eliminações da oitava edição:
Desde a primeira semana de confinamento foi traçada uma linha tornando-se uma espécie de eixo invisível em torno do qual se teceram todas as tramas, tricôs e os outros eixos de conflito mais ou menos evidentes aí dentro. Hoje, o Marcelo é muito mais jovial do que quando entrou, assim como o Rafinha me parece muito mais maduro do que no início, pra ver as transformações que esse programa opera. Marcelo não é um vilão a ser atacado e nem mocinho a ser defendido. Também Rafinha não é mocinho pra ser incensado e nem vilão pra ser execrado (grifos nossos). Rafinha e Marcelo exibem cicatrizes. Rafinha e suas juvenis tatuagens coloridas, uma capa que esconde um cara ainda bastante confuso diante de seus desejos. As marcas de Marcelo vão além da epiderme, da pele, são cicatrizes profundas de uma vida interior sofrida, intensa, conflituada. Não confundam o menino Rafinha que sonha em ser um pop star com o homem Rafinha que pode vir a ser músico (ou muso). Não confundam o jogador inteligente que às vezes errou, pesou na mão, e tantas vezes acertou na medida, com o psiquiatra Marcelo  (grifos nossos) (...) Marcelo e Rafinha jamais poderiam imaginar que o Big Brother iria fazer com que eles conseguissem o que lhes parecia impossível: conseguiram se perdoar. Hora de voltar à vida real, renovado e cheio de alegria de viver (...) quem sai agora é o Marcelo.

Dourado, vencedor do BBB 10
Mas um dos casos do BBB em que essa relativização de valores mostra-se mais evidente é na edição passada (2010). Ela trouxe para a casa dois brothers que já tinham participado de edições anteriores: Marcelo Dourado, oitavo participante a deixar a quarta edição do programa, e a ex-miss Joseane, que participou do BBB3.

Com pavio curto e falta de papas na língua, Marcelo Dourado foi eliminado de sua primeira participação no programa com 68% dos votos. Já no BBB 10, mantendo, de certa forma, a personalidade que mostrou na quarta edição, ele foi o polêmico vencedor do prêmio final, com 60% dos votos, sendo que a final bateu o recorde mundial em reality shows, 154 milhões de votos. Essa vitória mostrou que o público também relativiza seus valores na hora de votar. Dourado dividia a opinião entre os brothers da casa, brigou com muitos, foi acusado (dentro e fora da casa) de ser homofóbico e mesmo assim caiu nas graças do público e levou o prêmio.

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